Vida: 600 Quilômetros

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Vou abrir mão de ser linear e de tudo o que eu sei sobre conteúdo pra web. Sabe aqueles posts curtos, com textos diretos e fotos bem bonitas que todo mundo gosta de ver? Esqueça. Esse não é só mais um post pra contar uma história qualquer. Essa é a minha história, a história que talvez seja a grande aventura da minha vida, aquela que quero contar pros meus netos quando for bem velhinha. E sim, vou contar do meu jeito.

Já se passaram quase 10 anos e as memórias ficam meio embaralhadas, tem muita coisa que já esqueci, outras que nem valem a pena lembrar… mas em 2006 passei na UEL e fui morar em Londrina.

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Cheguei a começar o mesmo curso universitário antes, na Univali, ali em Itajaí, perto da casa dos meus pais. Fiz 3 semestres – o suficiente pra descobrir que sim, queria estudar Relações Públicas, mas não, não queria estar ali. Aos 19 anos, vim pra Curitiba fazer pré-vestibular. Tinha juntando algum dinheiro fazendo estágios – sempre estudei em colégio particular e meus pais continuaram pagando as mensalidades depois que fui pra Univali, então não tinha grandes compromissos financeiros – e na mesma época tive uma espécie de emotional break up depois de dois namoros longos que não acabaram da melhor maneira… ou seja, o suficiente pra convencer todo mundo que eu precisava mudar de ares.

Morei por 5 meses num pensionato ali na Silva Jardim, dividindo quarto com a Natália, e acabei decidindo prestar vestibular na UEL por causa do Higashi, que era de Londrina e também morava no Flat do Estudante. Meus pais tinham uns amigos por lá também… admito que não me preparei, não li nada além do resumo dos livros que caiam e nem me informei direito sobre a prova. Fui fazer a primeira fase numa van bate-e-volta que saiu daqui às 5h da manhã, pra chegar lá, almoçar, fazer a prova e voltar. Não achei que fosse passar e entrei em choque quando descobri que tinha ficado em primeiro, na primeira fase.

Na segunda-fase, fiquei hospedada na casa dos pais do Higashi, aquele colega do pensionato, ali na Quintino. Andei pela primeira vez na Higienópolis, conheci o Catuaí e me apaixonei pelo pôr-do-sol. Eu era uma pessoa diferente e não tinha ideia de tudo que aquele lugar me prometia.

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Era uma manhã de um dia de semana, no verão, quando saiu o resultado do vestibular. Só eu e a minha mãe estávamos em casa, em Brusque… O resultado do vestibular da UFPR já tinha saído, e como eu não tinha passado, uns dias antes fui até a Univali pedir reeingresso pra não perder a minha vaga (o combinado em casa era que se o plano não desse certo, eu iria voltar e retomar o que tinha parado). Não me preparei muito por que o resultado foi antecipado, só sairia no dia seguinte. Mas entrava todo dia no site, e fiquei meio ansiosa quando descobri isso…

Olhei a lista, dei search, e lá estava o meu nome. Procurei de novo. Sim, era o meu nome. Relações Públicas Noturno UEL 2006. Fiquei uns 10 minutos ali processando a informação e prevendo tudo que ainda viria. Desci as escadas e falei pra minha mãe, num tom de voz bem normal “passei na UEL”. Ela demorou pra processar. Virou e perguntou “quê?”. “Passei na UEL“.

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Normalmente, quem passa no vestibular, tem um momento bem mais efusivo, né? Mas eu não tinha com quem dividir aquilo! Não conhecia ninguém além de mim que tinha feito a segunda fase da UEL, e essa foi a única vez que me deu frio na barriga. Estava vivendo aquilo sozinha, por conta própria. Ninguém iria me sujar, raspar o meu cabelo, gritar, correr… não haveria trote. O meu medo maior era não ter apoio nenhum naquilo, por que nem eu sabia como seria. A primeira coisa que minha mãe falou, quando contei, antes de qualquer parabéns, resume bem… “E agora?”. Respondi, quase no automático, movida pelo desafio: “Eu vou.” “Vai onde?”. “Pra Londrina, né.

E foi assim que tudo começou. Meu pai chegou em casa pro almoço logo depois, e ele ficou muito mais empolgado do que eu esperava. Era o apoio que precisava. Minha mãe reagiu com os dois pé atrás, já que ela não conhecia Londrina, só sabia que era muito, muito longe.

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Fui fazer minha matrícula umas duas semanas depois, sozinha de novo. Queria muito ver um show que tinha em Curitiba naquele final de semana, e acabei emendando as duas coisas. Pela primeira vez, me hospedei sozinha num hotel. Pela primeira vez, resolvi tudo por conta própria. Aluguei um apartamento (minúsculo) pra morar, me matriculei, enfim… E conheci alguns colegas, como o Yan, que aparece nessa foto aí comigo (no dia da matrícula). Incrivelmente não senti frio na barriga de estar seguindo esse rumo nesses dias. Também não estava completamente aliviada, mas as coisas estavam andando… e eu finalmente deixaria aquele passado pra trás.

Um mês depois, meus pais pegaram o carro e viajaram aqueles 600km pela primeira vez, pra levar uma parte da minha mudança e pegar a chave do apê que eu tinha alugado do lado da UEL, no Universiflat. Levaram aquele PC velho – que tinha pedido pra guardarem quando montaram uma máquina nova – e a TV de tubo que ficava no meu quarto lá em Brusque. Eu não tinha muita coisa além disso, mas ganhei também uma sanduicheira, um liquidificador e um jogo de pratos e panelas. Ainda bem que o apartamento, apesar de micro, era mobiliado.

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2006 foi um ano incrível. Conheci e comecei a namorar com o Rafael (isso ainda rende um post inteiro!). Tive aulas de fotografia. Participei do Intercom Sul aqui em Curitiba. Fiz aulas extra-currículares de redação.

Morei no Universiflat por um ano, e andava 20 minutos todo dia até o CECA, do outro lado do calçadão, onde estudei. 20 min pra ir, 20 min pra voltar – muitas vezes com outros colegas que também moravam ali. Às vezes, ia duas vezes, pra poder almoçar no RU. Mas pra falar a verdade, nem lembro direito o que eu comia lá em 2006 – só lembro que ia bastante fazer compras no Carrefour e volta e meia almoçar em alguma lanchonete.

Não tinha telefone de linha, a internet era via satélite e custava R$45/mês. Meu aluguel era uns R$300 e eu devia pagar mais uns R$50 de condomínio… basicamente, a vida custava uns R$500 por mês, mais o que eu gastava com alimentação (o RU da UEL era R$1,90). Lembro de ter feito as contas e descoberto que eu vivia lá com menos do que gastava de mensalidade na Univali.

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É bem provável que o gasto mais absurdo fossem os R$80 da passagem de Londrina pra BC (não tinha ônibus de Londrina pra Brusque, então meus pais me buscavam na rodoviária de Balneário). E mais R$80 pra voltar. Mas o meu pai comprava e deixava pago, pra retirar no guichê… e assim evitar que eu desistisse de ir pra casa por causa do dinheiro, que era bem contadinho na época.

Quando saí da casa dos meus pais, minha relação com toda a minha família – pais, avós, irmão, melhorou bastante. Quando a gente tá longe dá muito mais valor pras pequenas mordomias que tem em casa. O começo foi bem difícil, e todos os centavos eram contados. Até os da lavanderia. Nos quatro anos que fiquei em Londrina, a situação financeira dos meus pais melhorou bastante também, o que acabou tornando as visitas dele mais frequentes… e me permitiu mudar de casa.

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Um ano depois, fui pra minha segunda casa em Londrina, o apartamento de dois quartos na Guararapes, perto da rotatória da Higienópolis com a JK, bem atrás do ponto do 307/305 que ia pra UEL. Ele era pequeno, com chão de madeira escura, janelas pequenas e não tinha mobília, mas era bem maior que o flat.

Ganhei um guarda-roupas, cama de casal, fogão, microondas, mesa pra sala e um frigobar do meu pai. Uns 6 meses depois, a grande conquista: a minha primeira máquina de lavar roupas! E assim a vida foi tomando forma. Comecei a fazer estágio meio período na EDUEL, e um tempo depois entrei pro Grupo de Extensão que fiz parte quase até o final da graduação. Em 2007 também fui visitar a fábrica da Natura em uma excursão com o povo da UEL e organizamos o inesquecível Vovô Bailar na disciplina de eventos!

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Morei no Edifício Aquarela por 3 anos, e esse apartamento teve muitas caras, apesar de nenhuma nunca ter sido muito arrumada. Isso tava longe de ser a prioridade. Não tinha sofá, e a TV era aquela de tubo de 14′ que veio do meu quarto em Brusque, quando sai de casa. Uns tempos depois, montaram outro PC lá em Brusque e, mais uma vez, fiquei com o antigo (sempre com monitor de tubo!).

Um ano depois que mudei pra esse apê, o Rafael foi morar oficialmente comigo. Ele já estudava na UEL (passou no Processo de Transferência Externa em 2007) e fazia estágio duas quadras pra baixo, quando comprou um computador e instalou lá em casa!

Sempre andei a pé e de ônibus, nunca tivemos carro ou outras mordomias (como notebook!) nessa fase universitária. Íamos no Valentino e voltávamos andando pra casa depois da balada com os amigos. O Pé na Cova e o Estação Café Brasil eram ainda mais perto, e muitas vezes voltamos pra casa só com o dia amanhecendo. Olhando pra trás, era feliz com muito pouco. Economizava a grana que “sobrava” no fim do mês e foi assim que, no último ano da faculdade, comprei o Macbook que me acompanha até hoje à vista.

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Em 2009, comecei a me despedir de Londrina. Muitos amigos já tinham ido embora, e tinha essa coisa coisa estranha de quando você chega no último ano da faculdade: seus veteranos já se formaram, ou seja, você não esbarra mais com eles por aí no corredor. Eu também já quase não tinha mais aulas. Dediquei boa parte do ano ao trabalho de conclusão de curso, e em julho o Rafael mudou pra Curitiba para trabalhar, enquanto fiquei lá “encerrando” aquela fase. Nunca imaginei que minha vida mudaria tanto e aquilo tudo ficaria na memória quase como um sonho.

Curitiba tem sido bem legal com a gente nesses 4 anos que estamos aqui (sabe aquela história “ame uma coisa que ela te amará de volta?” – é essa minha relação com Curitiba!). Em Londrina, conheci muita gente, com quem tenho pouco ou nenhum contato hoje em dia… a vida seguiu. Guardo no coração ótimos momentos e pessoas que admiro de verdade (sou grata pela oportunidade que tive de conhecer, crescer e conviver com gente tão diferente de mim e da minha realidade! <3) e um p*ta orgulho de ter vivido aquilo tudo por conta própria. É a minha história, e ninguém pode tirar isso de mim.

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Em 2010, sai definitivamente da UEL…mas, clichê dos clichês, a UEL nunca vai sair de mim. A experiência de estudar numa Universidade Pública, 600 km longe de tudo que eu conhecia, morar sozinha, morar junto, ficar 9h no ônibus pra ir pra casa e mais 9h pra voltar uma vez por mês, durante 4 anos… o tom de azul único do céu do Norte do Paraná e o pôr-do-sol laranja mais bonito da vida, logo ali no Igapó.

O suco da rodoviária, o bologna do Valentino, o churros e o tempura da feirinha da Lua, o Pastel-do-japonês da feira do lado do cemitério no domingo de manhã, as filas pro dia que tinha lasanha no RU, o refrigerante com bolo que só rolava uma vez por ano lá (no dia do aniversário do RU!), as peças do FILO no Ouro Verde e no Zaqueu, a OSUEL tocando no anfiteatro do Zerão… quantas memórias! Londrina é realmente uma cidade mágica. Meu lugar secreto.

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Quando me formei, já estava morando em Curitiba. Voltei pra lá algumas vezes depois, mas nunca mais teve o mesmo clima daqueles quatro anos, que só quem saiu de casa pra estudar e viveu aquilo com tanta intensidade, sabe o que significa. Obrigada, UEL. Serei eternamente grata por essa experiência. <3

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E claro, obrigada aos meus pais, que apoiaram e bancaram toda essa loucura… sei o quanto eu sou privilegiada por ter os pais que tenho e sei que sem eles anda disso disso teria sido possível! <3

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